Espaço para crescer
Locadoras vêm ganhando força no cenário nacional, mas concorrência crescente derruba preços e impõe dificuldades inesperadas às empresas que atuam no setor
Embora longe dos padrões norte-americanos, o mercado de rental de equipamentos já é realidade no país, mas ainda aguarda uma maior profissionalização em pontos nevrálgicos de operação, como preços, contratos e, até mesmo, legislação.
De fato, nos últimos anos o mercado de rental na área da construção tem sido marcado por um crescimento da demanda e das próprias empresas do setor, em um movimento que é especialmente estimulado pelos investimentos e facilidades de créditos para aquisição de novos equipamentos. Com isso, as empresas nacionais de locação ficaram otimistas, adquiriram mais produtos e ampliaram significativamente suas frotas, que por conta do refluxo no último ano acabaram não encontrando uma sequência condizente de construções, gerando cautela no segmento.
Traçando um panorama deste cenário, Eurimilson Daniel, diretor da Escad Rental, concorda que o setor nacional de rental já está bem posicionado em relação à frota e estrutura, mas enfrenta impasses em relação às obras, especificamente para equipamentos da Linha Amarela. “O setor de locação é hoje um dos mais promissores no país, mas deve ser pensado no médio e longo prazo”, avalia. “E isso ocorre não por falta de pujança do empreendedor, do investidor ou das empresas, mas por causa das constantes paralisações e demora na liberação de obras.”
POTENCIAL
De fato, segundo avaliação da Associação Paulista dos Empreiteiros e Locadores de Máquinas de Terraplanagem e Ar Comprimido (Apelmat) e do Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos e Máquinas para Terraplanagem e Construção Civil do Estado de São Paulo (Selemat), a locação de equipamentos no Brasil está próxima de alcançar uma representatividade semelhante aos países desenvolvidos. Para o presidente da Apelmat, Manuel da Cruz Alcaide, o setor já amadureceu muito no país, representando atualmente quase 40% do mercado brasileiro de equipamentos. “Equipamentos como retroescavadeiras e escavadeiras hidráulicas lideram a lista”, diz ele.
Além disso, mesmo em meio a situações adversas, as expectativas sobre o desempenho comercial em 2013 são positivas. Segundo cálculos do Sindileq/MG (Sindicato dos Locadores de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas de Minas Gerais), ao setor deve avançar aproximadamente 10% neste ano.
Mesmo com tais números, trata-se de um mercado novo, com muito espaço para crescer no país. No Reino Unido, por exemplo, a porcentagem de maquinário alugado em relação ao total de máquinas chega a 80%, conforme informa Paulo Esteves, diretor da Solaris. “Mas isso exige uma maior articulação das empresas, pois após anos de estagnação o segmento cresce de forma desordenada, principalmente pela entrada abrupta de novos players no mercado”, afirma.
Para que o crescimento seja mais sólido e, de quebra, aumente a competitividade do setor, diversos especialistas ouvidos pela M&T avaliam ser fundamental que as empresas de locação se reúnam mais para discutir os problemas do setor e encontrar soluções que beneficiem toda a cadeia de negócios. Esse, aliás, foi um dos objetivos do 1º Congresso Valorização do Rental, realizado durante o Construction Congresso 2013 (leia Box na pág.35).
CONTRASTE
Reynaldo Fraiha Nunes, presidente do Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas de Pernambuco (Sindileq/PE), afirma que em seu estado, assim como no restante do país, o mercado está extremamente competitivo, ao ponto de acarretar quedas absurdas de preços, comprometendo a qualidade do serviço. “A competição é sempre positiva, mas não pode ser predatória”, diz Nunes.
Até por conta disso, empresas do segmento apresentam diferentes visões sobre o cenário vivido no primeiro semestre de 2013. Para algumas companhias, como a Central Locadora, que atua com torres, gruas de grande porte, minigruas e elevadores cremalheiras, o mercado começou o ano bem, reagindo com demandas pontuais para alguns estados brasileiros, como o Rio de Janeiro e todo o Sul do país.
Igualmente positiva é a perspectiva da Transreta. Neste ano, a unidade de guindastes da empresa deve registrar crescimento em torno de 30% em relação ao ano passado. Como aponta João Rosas, diretor da Transreta, o mercado de locação está bem situado no cotidiano das obras de infraestrutura, principalmente no Rio de Janeiro, com destaque para os setores de geração temporária de energia, mineração e óleo & gás, principais nichos de atuação da companhia ligada ao grupo Mega Energia.
Independentemente do cenário, algumas empresas têm investido nas próprias operações. Locadora de plataformas aéreas e geradores de energia, a Estaf Equipamentos está investindo R$ 100 milhões em novos equipamentos, qualidade de serviços e renovação de parcerias, além da ampliação da estrutura física da sua filial em São Paulo. O mesmo ocorre com a Mills, fornecedora de locação e venda de plataformas aéreas e manipuladores telescópicos, que no primeiro trimestre de 2013 investiu R$ 120 milhões em equipamentos para locação, representando 41% do valor previsto para o ano todo.
CUSTO
Já para a Lafaete, locadora especializada na locação de equipamentos como contêineres e equipamentos da Linha Amarela para construção civil, infraestrutura e mineração, a primeira metade do ano não evoluiu muito bem. “A margem de lucro tem caído muito para o setor”, explica Alberto Silva, diretor da empresa, “especialmente com o aumento na área salarial e de insumos, sem que as locadoras possam repassar os custos para o preço dos produtos”.
De fato, os gastos com a mão de obra chegam a 35% dos custos de uma empresa do setor, conforme os cálculos de Alisson Daniel Gomes, diretor da Escad Rental. “O custo da mão de obra e a necessidade de treinamento dos operadores prejudicam o ganho das empresas”, pontua o executivo. “Os encargos sobre salários chegam a 108%, enquanto o preço da hora do trabalhador fica perto de R$ 50.”
Aspectos como esse reforçam a necessidade de equilíbrio e equalização das variáveis financeiras que regulam o setor. Segundo Silvimar Fernandes Reis, diretor de suprimentos da Galvão Engenharia, os negócios que envolvem a locação de equipamentos são de capital intensivo, gradual e de retorno com longo prazo. Além disso, cada empresa tem seus próprios custos e despesas operacionais, invariavelmente girando em torno da vida útil, manutenção e valor residual dos produtos. “De maneira geral, os custos e despesas se equiparam na última linha e os equipamentos não apresentam liquidez”, afirma. “Isto implica que a rentabilidade deve ser bem superior a qualquer aplicação financeira.”
Congresso debate valorização do rental
A Valorização do Rental foi o tema central do encontro realizado durante o Construction Congresso, em junho. Com o apoio de oito entidades de diversos estados brasileiros, o Congresso teve como intuito discutir o cenário e apresentar uma visão do setor pela ótica de locadores e contratantes. Segundo os participantes, o encontro foi realizado em um momento difícil para o setor, o que aumenta ainda mais a necessidade de se buscar novos caminhos, principalmente para os clientes. “O rental precisa ser valorizado, pois deixou de ser um setor diminuto para se tornar um grande parceiro da construção”, concorda Reynaldo Fraiha Nunes, presidente do Sindicato das Empresas Locadoras de Equipamentos, Máquinas e Ferramentas de Pernambuco (Sindileq/PE). “Afinal, em alguns segmentos da construção a quase totalidade dos equipamentos utilizados é locada.”



