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19 de outubro de 2010 - 08h12

As vantagens do estoque "zero"

Construtoras apostam na política de não manter estoque próprio de peças nos canteiros, otimizando recursos e exigindo maior eficiência dos fornecedores

Num cenário cada vez mais competitivo, no qual as empresas operam com margens apertadas, o custo da operação pode comprometer a rentabilidade do negócio e, com isso, os grandes estoques transformaram-se em coisa do passado. Essa máxima vale para todas as atividades e, no caso das construtoras, que operam com frotas de equipamentos de grande porte, ela também se aplica no que se refere às peças de reposição dessas máquinas.

Na era do just-in-time, as empresas procuram transferir a responsabilidade pelo estoque de seus insumos para os fornecedores, cuja eficiência em assumir essa tarefa ajuda a diferenciar as marcas que representam. No caso da construtora Queiroz Galvão, que opera com uma frota de cerca de 5,5 mil equipamentos, a filosofia é facilitada pela arquitetura descentralizada da operação.

Como o estoque de equipamentos que serão utilizados nas obras – fator determinante para dimensionar a necessidade de peças de reposição – é feito mediante a demanda de cada contrato, a empresa não dispõe de um pátio ou oficina central para essas máquinas. Por esse motivo, ela também não possui um estoque central de peças, já que cada obra deve equacionar seu suprimento nessa área. “A intenção é ter estoque zero”, resume Francisco de Souza Neto, superintendente de equipamentos da construtora. “Mas nem sempre isso é possível”, ele pondera em seguida.

Condições do canteiro
Como regra geral, Neto revela que sempre é preciso manter um pequeno estoque de filtros, ferramentas de penetração e algumas outras peças de alta rotatividade em determinada obra. “Quando temos uma frota grande de caminhões trabalhando no canteiro, por exemplo, sabemos que é prudente manter um bom estoque de faróis e lâmpadas”, diz ele. “Já nas operações em que os caminhões transitam em solo rochoso, reservamos uma quantidade razoável de pneus para trocas rápidas”, complementa.

Nesses casos, as características da obra definem a política de reposição de peças, por mais que o desejo seja trabalhar com estoque zero ou próximo disso. “É por isso que nas obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), onde atuamos em consórcio com outras construtoras na gestão e operação de mais de 700 equipamentos, há ocasiões nas quais optamos por implantar a loja de peças do fornecedor dentro do canteiro”, diz.

Essa solução, segundo ele, foi adotada como resposta à distância do canteiro em relação aos centros urbanos e devido à grande quantidade de equipamentos em operação, o que impunha a necessidade de peças de reposição para pronta entrega. Mas Neto avalia que essa situação é rara e, na maioria das vezes, os estoques de peças dos canteiros se limitam a filtros, correias, lubrificantes e ferramentas de penetração de solo. “Afinal, manter um estoque exagerado de peças vai desencadear uma preocupação futura nada fácil de resolver: o destino para as peças inativas”, diz ele.

Na Oficina Central da Odebrecht (Odeq), Paulo Ricieri Nery Lopes, especialista da área de reparo de equipamentos, vivenciou esse problema quando a empresa se preparava para ter a primeira oficina de equipamentos pesados certificada técnica e ambientalmente pelo Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária) e pelo IQA (Instituto de Qualidade Automotiva), respectivamente. “As certificações exigiam a criação de uma área de armazenamento totalmente otimizada para as ferramentas e peças especiais. Essa arrumação resultou no descarte de mais de 8 t de materiais inativos que ocupavam o estoque”, afirma Lopes.

Peças inativas
Para a Construtora Sant’anna, que administra uma frota própria de cerca de 60 equipamentos e mais 20 máquinas locadas, todos concentrados, basicamente, em três obras de grande envergadura, a operação enxuta facilita a gestão de peças inativas. “Procuramos trocar ou vender como sucata o mais rapidamente possível os componentes de máquinas que já não compõe a nossa frota”, diz Delton Galuppo, gerente de manutenção da empresa. Ele salienta que as negociações não envolvem venda de peças para remanufatura, atendendo à política da empresa de não alimentar o mercado secundário de insumos para equipamentos.

Mesmo contando com uma política bem definida nessa área, Galuppo diz que a empresa acumulava certa quantidade de peças inativas que foram descartadas há poucos meses. “Isso aconteceu porque fizemos algumas reformas em equipamentos que encerraram operação em obras recentes. Esses trabalhos exigiram a troca de várias peças, tornando as substituídas inativas.”

Os equipamentos recém-reformados pela Construtora Sant’anna tinham entre 10 e 15 anos de uso e foram revendidos. “Para as operações severas nas quais atuamos, eles já não serviam mais. Porém, para serviços mais leves, essas máquinas podem ser bem aproveitadas, por isso revendemos para empreiteiros de menor porte.” Ele explica que a substituição da frota ajuda a empresa a trabalhar com a filosofia just-in-time na área de equipamentos.

“Além disso, a revenda de equipamentos usados nos ajuda a estabelecer um fundo interno para aquisições e manutenção da frota”, diz Galuppo. Segundo ele, a construtora estipula que 6% do seu faturamento bruto anual deve ser investido em aquisição e manutenção das máquinas. “Para alcançar esse objetivo, é preciso dosar eficientemente os recursos locados na manutenção, o que, mais uma vez, justifica a filosofia de manter o estoque próximo de zero.”

Suporte do fornecedor
Nesse cenário, os fabricantes de equipamentos e seus distribuidores assumem cada vez mais a responsabilidade pela oferta de peças de reposição nos canteiros de obras. A eficiência com que disponibilizam esse serviço acaba se traduzindo na confiabilidade da marca e no seu posicionamento perante os clientes. “Os serviços de peças deveriam cobrir pelo menos os custos dos nossos concessionários, o que não acontece na rede da nossa empresa”, diz Cleivson Vieira, diretor de peças do grupo CNH, ao justificar os esforços da empresa para impulsionar esse negócio junto a seus distribuidores.

Nei Hamilton, diretor de vendas da JCB, confirma a importância desse negócio para os fabricantes de equipamentos. “Um bom suporte ao cliente chega a representar cerca de 5% do valor da máquina em termos de custos para o distribuidor”, ele avalia. Obviamente, esse percentual é considerado para clientes frotistas, cuja quantidade de equipamentos justifica tal investimento por parte do fornecedor.

Em obras de grande porte localizadas fora dos grandes centros urbanos, como as hidrelétricas do rio Madeira, fabricantes e concessionárias das mais diversas marcas estabeleceram operações locais, tanto em Porto Velho (RO) como no canteiro das duas usinas em construção, para pronto atendimento às construtoras. “Mesmo assim, monitoramos o abastecimento de peças, pois um item leva até dez dias para chegar ao canteiro e, se não fizermos isto, um pequeno defeito numa máquina pode comprometer o cronograma da obra”, sintetiza João Lázaro Maldi, superintendente de equipamentos da Camargo Corrêa, que lidera a construção de uma dessas hidrelétricas, a de Jirau.

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