21 de dezembro de 2017 - 19h40

Um lugar ao sol

Projetados com alta tecnologia para aplicação em terrenos acidentados, guindastes rough terrain ainda possuem participação tímida na frota brasileira. Entenda o porquê

Cada equipamento é concebido para atender a uma necessidade da maneira mais apropriada e segura. Sob essa ótica, os guindastes Rough Terrain (RT) são específicos para as operações de içamento e movimentação de cargas em terrenos acidentados e aplicações fora de estrada, nas quais outros modelos provavelmente atolariam ou não teriam o mesmo desempenho. Assim, esses guindastes podem ser utilizados em locais de condições adversas e acesso restrito, com pouco espaço disponível para manobras, posicionamento e deslocamentos. São especialistas nesse tipo de operação.

Mas como não existem normas no Brasil que exijam o uso de modelos apropriados para o trabalho em terrenos acidentados (situação em que, ademais, deveria prevalecer o bom senso técnico), é comum encontrar-se um guindaste rodoviário trabalhando indevidamente em aplicações fora de estrada, substituindo a função que deveria ser desempenhada por um RT. “Embora o rodoviário cumpra o papel de içar cargas, não é dimensionado para trabalhar em terrenos acidentados”, explica Leandro Nilo de Moura, gerente de marketing da Manitowoc Cranes. “Os pneus rodoviários não têm tração nem aderência e, portanto, se o terreno estiver em más condições, o guindaste vai atolar.”

Nessas situações, algumas obras utilizam um trator agrícola para desatolar o guindaste, puxando-o com cabo de aço, em uma tarefa arriscada que pode colocar a segurança em xeque caso o cabo arrebente. “As empresas contratantes e o próprio mercado de obras deveriam estabelecer normas ou critérios que exigissem os tipos de equipamentos apropriados para diferentes tipos de terreno e condições de operação, assim cada máquina cumpriria sua tarefa principal de maneira segura e eficiente”, salienta Moura.

DERRUBADA

Até por conta disso, os guindastes RT estão sofrendo uma forte queda na demanda, pressionada pela crise no setor de óleo e gás e de outros segmentos da economia. O volume de vendas em 2017 é o menor em dez anos. Prova disso é que até o mês de agosto tinham sido identificados menos de cinco guindastes RT vendidos no mercado brasileiro, segundo dados da Receita Federal.

O número impressiona pela sua timidez, mas não causa espanto por ser coletado num período de crise político-econômica que o país se esforça para vencer. A realidade deveria ser bem melhor, já que em 2011 foram comercializadas mais de 100 unidades RT e, em 2012, cerca de 150 unidades. “Realmente, os locadores em geral dão preferência a outros modelos de guindastes devido à facilidade de deslocamento rodoviário e uso em obras rápidas”, confirma Elton Wu, diretor comercial da Sany.

Ele estima que existam por volta de 500 guindastes RT na frota brasileira, mas no momento não visualiza um aumento de demanda no curto ou médio prazo para esse equipamento, em razão do ritmo desacelerado dos investimentos. “O mercado de guindastes como um todo ainda está sentindo os efeitos das reduções dos investimentos públicos e privados”, completa José Carlos Lima Resende, gerente de suporte ao cliente da Tadano. “Mas no caso específico dos RT de menor capacidade há um fator agravante, pois sofrem ainda a concorrência de outros tipos de equipamentos de elevação, como os manipuladores telescópicos, apesar de terem aplicações mais específicas.”

Moura, da Manitowoc, concorda e acrescenta que o uso inadequado de outros equipamentos em substituição ao guindaste RT em determinadas situações também gera uma estatística inadequada, em desacordo com as reais necessidades de aplicação brasileiras. “Em operações nas quais deveria ser utilizado um modelo RT e aplica-se um AT, há aumento de participação indevido de um modelo em lugar de outro dimensionado para tal atividade”, diz. “Até por isso, o uso de modelos AT e TC no lugar do RT também tem ajudado a derrubar a participação desses guindastes nas vendas.”

INADEQUAÇÕES

No mercado, avalia-se que, na ausência dos modelos RT nas operações off-road, os tipos de guindaste mais comumente utilizados sejam o Truck Crane (TC) – de lança telescópica e montado sobre caminhão, para as operações mais difíceis –  e o All Terrain (AT).

Contudo, o uso de outros modelos em operações para as quais apenas os RT são devidamente dimensionados pode implicar  risco, como acidentes durante os deslocamentos nos canteiros de obras em que o terreno é realmente acidentado, além de falta de produtividade. “Como os guindastes rodoviários geralmente possuem os controles de patolamento fixados ao chassi do transportador, há uma perda de tempo na operação de patolamento, pois é necessário descer da cabine para patolar a máquina”, explica Rezende. “Normalmente, os RTs são patolados pela cabine de operação. Além disso, os procedimentos de liberação e fixação do moitão à estrutura da máquina – feitos após as operações – normalmente são mais demorados para executar nos rodoviários.”

A dimensão maior dos guindastes rodoviários (comparados a um RT de mesma capacidade) e a direção apenas nos eixos dianteiros também tornam mais demorada a manobra dos rodoviários.

No caso de um guindaste AT operar no lugar de um RT, haverá um custo operacional maior. “Os modelos AT não podem se deslocar em rodovias sem um veículo auxiliar para transportar seus contrapesos na mobilização e desmobilização, além ser um tipo de equipamento com elevado custo de aquisição e manutenção, com operação bastante complexa ainda por cima”, diz Rezende.

JUSTIFICATIVA

E isso, indubitavelmente, representa um entrave para a produtividade. Versáteis, os guindastes RT são ideais para operações na construção civil, óleo e gás, mineração, siderurgia, petroquímicas e obras eólicas. Também são tecnicamente capazes de realizar pequenos deslocamentos com a carga ao invés de trabalhar apenas patolados, o que melhora a mobilidade em trabalhos de montagens industriais como içamento e movimentação de vigas. Os eixos robustos e direcionáveis dão a esses guindastes boa capacidade de tração (4x4) e tabelas de cargas variáveis, com diferentes opções de patolamento.

No porte, o RT é um tipo de guindaste com estrutura mais compacta e reforçada, em comparação a um modelo rodoviário de mesma capacidade. Devido a essa característica, aliada ao seu projeto diferenciado, tem a possibilidade de içar cargas sobre pneus e transitar por locais onde os rodoviários ficam impossibilitados.

Além disso, os pneus off-road são de alta flutuação, largos e de baixa pressão, permanecendo o tempo todo em contato com o solo. “Esse equipamento também possui estrutura mais rígida, suspensão reforçada, tração 4x4 e todos os eixos direcionáveis”, informa Wu, da Sany. “O guindaste RT é compacto e preparado para trabalhar em diferentes condições, diferentemente do guindaste rodoviário, que é montado sobre caminhão comercial ou customizado, concebido para trafegar em rodovias.”

Por tudo isso, Moura aposta que alguns fatores farão com que o cenário mude para melhor, principalmente em razão do perfil dos projetos que terão maior demanda no Brasil. “Hoje, devido à redução da quantidade de obras, muitos guindastes estão parados no pátio e, por enquanto, não há justificativa para se investir em equipamentos novos”, diz ele.

DEFINIÇÕES

Fato é que as características únicas dos modelos RT, potencializadas por constantes inovações tecnológicas e menor valor de investimento inicial se comparado ao AT, garantem a esse tipo de guindaste uma vantagem competitiva difícil de ser equiparada com outros equipamentos. “O Brasil ainda é um país com muito a ser feito em termos de infraestrutura, mas possui um mercado pouco explorado pelos fabricantes”, conjectura Moura.

Os especialistas entrevistados para esta reportagem acreditam que esses guindastes têm possibilidade de crescimento em indústrias de grande porte, como petroquímicas, mineradoras, empresas de óleo e gás, usinas siderúrgicas e na construção civil, mercados que ainda estão desaquecidos ou aguardando definições efetivas no setor público e privado para investimentos. Mas o volume de equipamentos ociosos ainda vai postergar o crescimento nas vendas.

Voltando ao início da reportagem, Moura conclui que, nesse rol de perspectivas, é necessária a volta da utilização dos modelos RT em aplicações para as quais só eles foram projetados. “Esses guindastes, inclusive, podem ser utilizados por grandes conglomerados industriais, para fazer um trabalho bem planejado de manutenção das unidades localizadas em diferentes pontos”, sugere o especialista.

EQUIPAMENTO TEM LONGO HISTÓRICO NO PAÍS

Utilizados no Brasil há pelo menos 40 anos, os guindastes tipo RT se notabilizaram principalmente em razão de suas características de robustez, operação, manobrabilidade e manutenção. Quando de sua introdução no país, os RT mais comuns tinham cabine de operação fixa. “Evidentemente, eram mais simples que os modelos atuais, que em sua maioria possuem cabine instalada na superestrutura”, conta José Carlos Lima Rezende, gerente de suporte ao cliente da Tadano. “A operação também era mais desgastante para o operador, que precisava torcer o pescoço para acompanhar o giro da estrutura superior.”

Na década de 70 foram fabricados alguns modelos RT no Brasil, que posteriormente se tornaram bem populares no setor de infraestrutura. Esses equipamentos eram muito comuns na faixa de baixa capacidade – até 30 toneladas. Com o passar do tempo, foram lançados modelos maiores, evolução que tornou esses equipamentos comuns nas obras de construção civil, mineração e indústria de óleo e gás.

Segundo Ricardo Cunha, gerente nacional de vendas da Sany, os primeiros fabricantes a introduzirem esse modelo de guindaste no Brasil foram Bantam, Clark e PH. “Os aspectos que mais chamavam a atenção eram a facilidade de operação em canteiros e espaços confinados e a possibilidade de deslocamento com a carga içada, fatores que proporcionavam ganhos operacionais em relação aos guindastes sobre caminhão”, conta.

Com o passar dos anos, os modelos antigos evidentemente se tornaram obsoletos e sem condições de atualização, desprovidos de sistemas de telemetria e controle de operações. “Dificilmente são dimensionados para alguma obra hoje, por terem motor sem controle de emissões, consumo elevado de combustível e condições de segurança ultrapassadas”, conclui Cunha.

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