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10 de março de 2017 - 18h34

Solução ecológica

País gera 84 milhões de m3 de resíduos de construção por ano, que poderiam ser utilizados em diversas aplicações, não fosse a inexistência de legislação que incentive o seu reaproveitamento

Por: Santelmo Camilo

A reciclagem é um caminho irreversível. Os recursos naturais são finitos e saber reutilizá-los é uma forma civilizada de se conservar o planeta e sua biodiversidade, garantindo qualidade de vida às futuras gerações. No setor da construção, principalmente, a atividade oferece vantagens ambientais, sociais e econômicas, seja ao poupar extração de minérios, supressão vegetal e fontes de geração de energia, como ao estimular a atividade econômica com o uso dos resíduos em, por exemplo, base e sub-base de aterros, artefatos de concreto, pavimentação e fabricação de blocos de vedação, dentre outras aplicações.

Há alguns anos, pesquisadores do Instituto de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicaram o Panorama dos Resíduos de Construção e Demolição, um documento que destaca os diversos benefícios que a reciclagem na construção civil pode gerar, desde a redução no consumo de matérias-primas e insumos energéticos, até a redução de áreas necessárias para aterro e aumento da vida útil dos equipamentos em operação.

De fato, as vantagens são atraentes, tendo em vista que a construção civil é grande consumidora de recursos naturais e envolve processos industriais que podem ser danosos ao meio ambiente. Segundo Luiz Henrique Ferreira, diretor da Inovatech, os sistemas construtivos consomem nada menos que 45% de toda a energia e 50% de todos os recursos naturais produzidos no planeta. Ao consumir em larga escala, é gerado um montante ainda maior na outra ponta, se forem consideradas as etapas construtivas e as demolições. “O entulho gerado na demolição de uma obra de 10 mil m2, se reaproveitado no próprio local, incidirá numa economia de cerca de R$ 91 mil”, calcula Ferreira, explicando que esse é o princípio da chamada “construção sustentável”.

GESTÃO

Para o presidente da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção Civil e Demolição (Abrecon), Hewerton Bartoli, todos os resíduos gerados em uma obra podem ser reciclados. Para tanto, é essencial a elaboração do Plano de Gerenciamento de Resíduos de Construção Civil (PGRCC) para que obra, meio ambiente, sociedade e toda a cadeia econômica envolvida sejam atendidos. “A gestão de resíduos de construção e demolição (RCD) requer um sistema correto de armazenamento, equipe competente para manipulá-lo, equipamentos adequados, identificação de transportadores e destinatários, incluindo áreas de transbordo e triagem, aterros e usinas de reciclagem devidamente licenciados pela gestão pública e órgãos ambientais”, acrescenta o especialista.

De acordo com ele, de 50% a 70% dos RCD gerados em uma obra são classificados como classe A, ou seja, provêm de alvenaria, concreto e solos. Além desta, a resolução Conama 307/2002 define os resíduos de classe B (que incluem recicláveis como papel, plástico, madeira, vidro e gesso), os de classe C (não recicláveis) e os de classe D (perigosos). No canteiro de obras, geralmente são instaladas baias para separar e classificar cada tipo de resíduo gerado, enquanto as equipes devem ser treinadas para fazer a triagem, acondicionar e transportar esses resíduos de forma adequada.

A resolução do Conama também fornece diretrizes e procedimentos sobre manejo, transporte e destinação do RCD. “Com base nesse dispositivo, a cadeia da construção civil se organiza para atender às exigências, um processo que ainda precisa ser adaptado”, explica o presidente da Abrecon. “A criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) em 2010 motivou uma aceleração na criação de estruturas, um avanço na criação de planos municipais e o surgimento de empresas especializadas em reciclagem.”

DESCONFORTO

Alguns dados mostram isso. A Pesquisa Setorial 2014/2015 da Abrecon revelou que o setor de reciclagem de RCD no Brasil é constituído por 310 usinas, classificadas em pequenas e médias empresas que, juntas, movimentaram cerca de R$ 391 milhões em 2014. Aproximadamente 64% das usinas faturam até R$ 100 mil por mês.

De acordo com Levi Torres, coordenador da Abrecon, o Brasil gera anualmente 84 milhões de m3 de RCD. Em 2014, as 310 usinas do país reciclaram cerca de 17 milhões de m3. O restante seguiu para aterros sanitários ou tiveram outra destinação. “A capacidade nominal de produção das usinas é de 38 milhões de m3 por ano, mas o setor tem plenas condições de dobrar essa quantidade”, aposta Levi, comentando ainda a mudança ocorrida no setor. “O setor da reciclagem de RCD cresceu muito de 2010 a 2014. Hoje, 84% das usinas brasileiras são privadas e, em 2002, cerca de 80% pertenciam ao poder público. Assim, a Resolução Conama 307 foi um marco nesse setor, incentivando as empresas a investir nessa área.”

O estado de São Paulo concentra 54% das usinas instaladas no país. Na sequência vêm os estados do Rio de Janeiro e do Paraná, cada um com 7% das recicladoras. Entre os principais mercados consumidores de material agregado reciclado estão o de pavimentação e o de saneamento, lideradas pelo setor público. Contudo, a reciclagem de RCD no Brasil permaneceu estagnada nos últimos dois anos, devido principalmente aos entraves da construção civil.

A principal dificuldade ainda é a inexistência de legislação que incentive as empresas a utilizar o material reciclado. De todos os municípios que possuem políticas de resíduos sólidos implantadas, 40% não preveem o uso preferencial do agregado reciclado em obras de infraestrutura. As cidades possuem normas que apenas as enquadram nas diretrizes do Conama, mas não especificam o uso prioritário do material reciclado.

Bartoli admite que, enquanto os países europeus utilizam resíduos reciclados de construção e demolição desde a década de 50, aqui ainda há uma resistência em se utilizar o material. De acordo com ele, cerca de 50% dos municípios brasileiros ainda destinam os resíduos para lixões ou locais irregulares, ao invés de reciclá-los. “Esse material tem ótima qualidade e aplicações pré-estabelecidas para a infraestrutura, mas não existe lei que obrigue as construtoras a utilizar o agregado reciclado, mesmo quando são financiadas por banco público”, destaca. “Muitas cidades têm legislação específica para o consumo de agregado reciclado, porém, o consumo é feito pela própria prefeitura em obras subordinadas à municipalidade ou a outro órgão governamental.”

A carga tributária é outro fator que causa desconforto. Algumas empresas se queixam da dupla tributação do material, já que incide imposto quando são utilizados pela primeira vez na obra e são novamente tributados após serem reciclados e se tornarem subproduto.

A derrubada dos preços – que precisaram acompanhar a margem dos valores praticados na venda de agregados – também afetou o desempenho das empresas que vendem material reciclado. As pedreiras reduziram de 20% a 40% o preço de venda do material in natura. Antes, a diferença de preço era considerável – esse produto era 30% mais caro em algumas regiões –, mas agora o preço do material in natura está mais competitivo, tornando-se de 10% a 15% mais caro que o reciclado, o que tem feito muitas empresas optarem pelos agregados das pedreiras.

EQUIPAMENTOS

Se a reciclagem bem planejada é um caminho para minimizar os impactos ambientais e baratear custos, isso só torna-se possível com o uso de equipamentos concebidos para concretizar essas possibilidades. Do ponto de vista logístico, equipamentos como usinas de britagem móvel, recicladores, caçambas-trituradoras e peneiras podem ser levados para trabalhar no local da demolição ou processamento do resíduo.

As soluções já despontam no processo de demolição mecanizada. Os rompedores hidráulicos e tesouras de demolição, por exemplo, substituem o uso de explosivos em demolições urbanas. Se portar um rompedor, uma escavadeira compacta pode demolir todos os andares de um prédio, minimizando riscos e gerando a possibilidade de as edificações serem desmanchadas por etapas.

Isso permite uma gestão mais eficiente do entulho, feita de forma gradativa e não de uma só vez, como acontece em implosões. “A eficiência de um rompedor deve ser avaliada pela frequência e força de impacto, em uma combinação ideal para todas as condições de trabalho”, observa Célio Neto Ribeiro, diretor da Maxter Máquinas. “No desmonte de rocha usa-se maior força de impacto e menor frequência, já que é a força dos golpes que quebra as rochas”, explica. “Na construção civil é diferente, pois o concreto precisa de constância de batidas para ser rompido.”

O porte dos rompedores deve ser escolhido conforme algumas características do trabalho, como material a ser rompido, prazo de execução e escavadeira ou retroescavadeira disponível para portá-los. Segundo Roberto Fonseca, gerente comercial da Machbert, também é necessário conhecer as características reais da atividade para dimensionar os equipamentos. “Se o prestador de serviço dispuser de um equipamento para o uso de rompedor hidráulico, é preciso saber o porte (peso) para definir o modelo do rompedor a ser instalado”, informa.

TRITURAÇÃO

A solução integrada da demolição até a destinação final dos resíduos pode fazer a diferença no canteiro de obras. No estágio mais avançado da demolição, onde o concreto é triturado e a ferragem separada dos resíduos, as caçambas-trituradoras ou britadores primários móveis de mandíbulas são soluções simples e de logística menos onerosa.

O gerente de produto da linha de equipamentos para demolição da Atlas Copco, Marcos Schmidt, explica que as caçambas-britadoras são mais voltadas para as pequenas e médias obras do setor de demolição, que não possuem demanda grande de resíduos, mas querem reciclá-los no local da obra e utilizá-los em bases e sub-bases de concreto. Essas caçambas são instaladas em escavadeiras hidráulicas, retroescavadeiras, pá carregadeiras e minicarregadeiras, desde que apresentem porte necessário para acionar cada modelo do implemento.

De acordo com o especialista, o descarte de resíduos de demolição é sempre uma preocupação, não só do ponto de vista socioambiental, como também de custos. Para não se tornarem entulho, precisam ser transportados até o bota-fora, enfrentando tráfego, gerando custo horário em canteiro e consumo de combustível. “As caçambas-britadoras podem reverter os resíduos em lucro para as empresas nas obras”, garante Schmidt.

E Ribeiro, da Maxter, acrescenta outro ponto. “O resíduo pode ser reaproveitado como aterro no alicerce da própria obra e dar o primeiro passo para a obtenção do selo verde no início da construção”, diz. “Se for transportado nas caçambas dos caminhões, o resíduo triturado preenche melhor os espaços vazios, reduzindo em até 30% a quantidade de viagens.”

USINAS DE BRITAGEM

Para transformar grande quantidade de resíduos em produto final, as usinas de britagem são os equipamentos apropriados. “As usinas de britagem têm capacidade média de produção que passa de 100 t/h. Já um britador primário de maior porte chega, no máximo, a 75 t/h”, compara Schmidt.

Para funcionar, elas precisam de uma escavadeira com rompedor hidráulico ou tesoura de demolição para preparar o material a ser britado, uma escavadeira com concha para alimentar o britador e uma pá carregadeira para limpar a boca do britador e fazer a formação das pilhas do material processado para posterior aplicação. Esses equipamentos de apoio tendem a variar de acordo com a usina, móvel ou fixa.

No segundo semestre de 2016, a empresa R3ciclo Demolição e Reciclagem utilizou duas usinas de britagem móvel para o processamento de rochas utilizadas na base e sub-base de pistas de pouso do Aeroporto Executivo Catarina, construído na cidade de São Roque (SP), na altura do km 61 da Rodovia Castelo Branco. Os equipamentos são da marca Terex Finlay e produziam de 1.000 a 2.000 m3 de brita por dia.

De acordo com a R3ciclo, a economia gerada no uso desses equipamentos pode variar de 30% a 70% em comparação ao método tradicional, que envolve carregamento, transporte para uma empresa de reciclagem e compra de material in natura de pedreira. Já os custos com consumo de diesel e de manutenção são elevados, devido à operação agressiva dos britadores, “mas o retorno é satisfatório”, como afirma a empresa.

No Brasil, o uso das usinas de britagem fixas predomina no processamento de RCD, principalmente por serem mais tradicionais. O entulho é transportado para essas usinas, que recebem o material a partir das peneiras fixas, fazendo a separação, britagem e peneiramento em três ou quatro granulometrias diferentes. A usina móvel também pode fazer isso, desde que conte com uma peneira móvel.

Normalmente, as usinas fixas produzem agregados de diferentes granulometrias (areia, pedrisco, brita, bica corrida e rachão), o que permite uma diversificação maior do público consumidor e facilita a venda do agregado. Já as usinas móveis têm britadores primários, que produzem apenas bica corrida usada em pavimentação.

O custo operacional de uma usina fixa é alto, pois envolve pás carregadeiras para fazer o abastecimento, além de estrutura de vigilantes e controle de portaria, entre outras necessidades, embora sejam elétricas, dispensando o custo operacional com combustível.

Equipamentos demolem ponte em tradicional autódromo na Alemanha

A empresa alemã ERA utilizou uma frota de cortadores de tambor da MB Crusher para demolir uma antiga ponte que cruzava o autódromo AVUS (Automobil-Verkehrs-und Übungsstraße), o primeiro do mundo a ser aberto ao tráfego, sendo integrado à rodovia alemã A115. Realizada em oito dias, a demolição foi pontuada por uma série de desafios logísticos, como evitar a interrupção do tráfego durante a operação. Para isso, a empresa utilizou inicialmente equipamentos de grande porte, posteriormente substituídos por soluções menores como os modelos MB-R800 (acoplados a escavadeiras entre 10 e 22 tons) e MB-R900 (para escavadeiras entre 19 e 35 tons). “Os cortadores são equipados com sistemas duplos de motorização, que permitem a distribuição diferenciada de potência para as duas cabeças de corte”, informa a fabricante. “Com isso, o cortador adapta o despejo de potência de acordo com a dureza do material, gerando maior estabilidade e redução do estresse no braço da escavadeira.

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